Começa o novo reinado e a Era Reiwa no Japão

Ponte Nijubashi, acesso principal ao Palácio Imperial, em Tóquio/Japão

No dia 30 de Abril último, o imperador Akihito participou das cerimônias preparadas para a sua abdicação, anunciada cerca de um ano e meio antes. Foi a primeira vez em mais de 200 anos que um imperador japonês deixou o Trono do Crisântemo em vida, e é um fato tão inesperado que o Parlamento japonês precisou aprovar uma lei específica para que o imperador Akihito pudesse abdicar. Com 85 anos de idade, já tendo sido operado do coração e já tendo enfrentado um câncer de próstata, o imperador Akihito alegou que a sua idade avançada e a sua saúde já não lhe permitiam desempenhar as suas funções da melhor maneira possível. A rápida resposta do Parlamento mostrou o quanto o monarca é querido e respeitado pelos súditos!

Imperador Akihito, em trajes tradicionais, participa de cerimônia religiosa,
como parte dos preparativos para a abdicação

Com a abdicação do imperador Akihito, não se encerrou apenas o seu reinado, que durou trinta anos, mas também a era imperial Heisei. No Japão, além do calendário normal, é utilizado também  um calendário baseado nas eras imperiais. Cada era imperial tem a duração do reinado do imperador. Quando muda o imperador, encerra-se uma era e inicia-se outra. A Era Heisei, teve início em 1989, quando o imperador Akihito ascendeu ao trono, após o falecimento de seu pai, o imperador Hirohito, e encerrou agora, com sua abdicação. A partir de hoje, 1º de Maio de 2019, tem início a Era Reiwa, que terá a mesma duração do reinado do novo imperador Naruhito.

Imperador Akihito, ao lado da imperatriz Michiko, faz seu último discurso,
na cerimônia em que abdicou ao Trono do Crisântemo

No último dia de reinado de Akihito, a TV pública NHK cobriu todas as cerimônias envolvendo a abdicação do imperador, além de cobrir a reação das pessoas por todo o país. Foi bonito ver o carinho das pessoas, expressando sua gratidão ao monarca, e expressando também a esperança que vêm junto com a nova era que se inicia com o novo reinado.

A Era Heisei, o reinado do imperador Akihito, foi um período de paz para o Japão, mas também foi um período marcado por grandes turbulências econômicas, com o estouro da bolha imobiliária no início dos anos 90, que jogou o país em uma estagnação econômica da qual até hoje tem dificuldades para sair. Outro grande baque na economia ocorreu em 2008, reflexo da crise gerada após a quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers. O Japão viu a sua economia deixar de ser a segunda maior do mundo, caindo para o terceiro lugar, ao ser ultrapassado pela China. Os trinta anos da Era Heisei também viram o envelhecimento da população e a queda vertiginosa da taxa de natalidade, com a consequente diminuição populacional. O período também será lembrado pelos grandes desastres naturais que causaram muitas mortes e muita destruição no país, como o Grande Terremoto de Hanshin-Awaji (Kobe) em 1995, e o terremoto seguido de tsunami que varreu o nordeste do Japão em 2011, que culminou com o desastre nuclear de Fukushima. Mas nem só de más notícias a Era Heisei será lembrada: neste período a tecnologia japonesa alcançou o seu ápice, com o país se tornando sinônimo de desenvolvimento e modernidade.

Os Imperadores Eméritos Akihito e Michiko

Hoje pela manhã, ocorreu no Palácio Imperial em Tóquio, no grande salão Matsu-no-Ma, as cerimônias de entronização do príncipe herdeiro Naruhito e da princesa Masako, como os novos imperadores do Japão. Na primeira cerimônia, de cerca de 5 minutos e reservada a poucos membros da família imperial, o novo imperador recebeu os Três Tesouros Sagrados, que simbolizam o poder imperial. São eles a Espada Kusanagi-no-Tsurugi, o Espelho Yata-no-Kagami e a Joia Yasakani-no-Magatama, que representam respectivamente, Valor, Sabedoria e Benevolência. Segundo a tradição, a deusa do Sol Amaterasu-no-Ookami, teria presenteado o primeiro imperador do Japão com estes três objetos sagrados. Eles permanecem guardados no Santuário de Ise, na província de Mie-ken, e só saem de lá para a coroação de um novo imperador.

O novo imperador Naruhito recebe os Três Tesouros Sagrados, (que estão sobre as mesinhas)
que marcam a sua ascensão ao Trono do Crisântemo

Cerca de meia hora depois, foi realizada a cerimônia de sucessão, no mesmo grande salão Matsu-no-Ma, com a presença de todos os membros adultos da família imperial e representantes dos três poderes do Estado. O novo imperador fez seu primeiro discurso dirigido à nação, ao lado da nova imperatriz Masako. Em seu discurso, o imperador Naruhito afirmou que reinará conforme a Constituição, sendo um símbolo do Estado e do povo japonês, prometeu se esforçar para proporcionar felicidade e prosperidade para a nação e expressou sua admiração pelo trabalho realizado por seu pai, Akihito. 

Imperador Naruhito, ao lado da Imperatriz Masako, faz seu primeiro
discurso após ascender ao Trono do Crisântemo

Logo após foi a vez do representante dos cidadãos fazer seu discurso, e o escolhido foi o primeiro-ministro Shinzo Abe, que discursou afirmando: “Nós reconhecemos a Vossa Alteza como símbolo do Estado e da unidade nacional. Estamos determinados, em meio a uma conjuntura internacional instável, a construir uma era repleta de esperança e paz”. O primeiro-ministro também citou a nova era, Reiwa, afirmando: “Nesta era em que os corações puros das pessoas se unem, estamos determinados a criar uma era em que uma nova cultura nasça”.

O novo casal imperial, em trajes tradicionais

Imperador Naruhito,  a princesa Aiko e a Imperatriz Masako

O novo imperador é o primeiro imperador japonês nascido após a Segunda Guerra Mundial e o único a crescer durante um período no qual o Japão esteve em paz. Diferente dos seus antecessores que foram criados longe dos pais (pela tradição os herdeiros do trono devem ser criados pelos súditos e não pelos pais), Naruhito foi criado junto de sua família, dando um novo significado ao papel e à importância da família na sociedade japonesa. Também foi quebrada a tradição pela qual os príncipes-herdeiros eram coroados já ao nascer: Naruhito teve a oportunidade de se dedicar aos estudos primeiro. O novo imperador do Japão se graduou em História pela renomada Universidade Gakushuin, de Tóquio. Fez mestrado em Oxford, na Inglaterra, entre 1983 e 1985, onde estudou a história do transporte no Rio Tâmisa. Os transportes aquáticos também foram tema de seu doutorado, na Universidade Gakushuin. Naruhito assumiu suas responsabilidades como príncipe-herdeiro em 1991.

Os assuntos relacionados à água muito interessam ao novo imperador, que foi presidente honorário do Conselho Consultivo sobre Água e Saneamento, das Nações Unidas, de 2007 a 2015. Participou, inclusive, do Fórum Mundial da Água, realizado em Brasília, em março do ano passado.

Outro aspecto que é muito destacado pelos comentaristas, é a defesa ferrenha que fez da esposa, em várias ocasiões. Masako, antes de entrar para a família imperial, era uma diplomata, e todos diziam que ela teria uma brilhante carreira  na diplomacia. Ela abriu mão de sua carreira para se casar com o príncipe-herdeiro e sofreu muito para se adaptar à vida cheia de regras e restrições, da Casa Imperial. Também sofreu enorme pressão psicológica, para que gerasse um herdeiro do sexo masculino para o Trono, já que a Constituição de 1947 proíbe a ascensão de mulheres ao Trono do Crisântemo. Como resultado de tanto esforço para corresponder às expectativas, a agora imperatriz Masako acabou se exaurindo, entrando em depressão. Por este motivo, esteve afastada de compromissos oficiais e muitos a criticaram, dizendo que ela estava sendo negligente em suas atribuições, no que foi prontamente defendida pelo marido. Masako ficou conhecida como a "princesa triste", por conta destes episódios. Espero que, a partir de agora, com as novas atribuições como imperatriz, que sua saúde não piore. Que Deus abençoe o novo imperador do Japão, e que seu reinado seja conduzido com sabedoria!


A Família Imperial Japonesa
Sentados, a partir da esquerda: Imperatriz Masako, Imperador Naruhito, Imperador-emérito Akihito,
Imperatriz-Emérita Michiko, Principe Akishino e Princesa Kiko
Em pé, a partir da esquerda:  Princesa Mako, Princesa Aiko, Principe Hisahito e Princesa Kako

O então príncipe-herdeiro Naruhito, em visita oficial ao Brasil em 2008,
para a celebração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

Príncipe-herdeiro Naruhito discursa no Palácio do Planalto em 2008
durante cerimônia pelo Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

O príncipe-herdeiro durante sua última visita ao Brasil, em 2018, onde participou
do Fórum Mundial da Água

Príncipe-herdeiro Naruhito foi recebido pelo presidente Michel Temer,
no Palácio do Planalto, em 2018

Príncipe-herdeiro Naruhito, recebido em audiência pelo presidente Michel Temer,
no Palácio do Planalto, em 2018

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